CONCURSO DE TEXTOS DE NATAL

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CONCURSO DE TEXTOS DE NATAL




CONCURSO DE TEXTOS DE NATAL



6-MARIAS – Chica Picanço

7-TOUPEIRA – Jairo Brod









MARIAS

Chica Picanço




MARIAS
Maria do Amor! Maria da dor!
Rainha de realeza Divina,
Rosto angelical, pureza no olhar!
Maria do Mar! Maria do Sol,
Maria da estrela! Maria de Belém!
Maria da Estrela de Belém!
Santa Virgem,
Disseste sim ao anúncio do anjo:
“Terás um filho que se chamará Emanuel”!
São tantas Marias! Sinceras,
amadas, abandonadas,
Surradas e rejeitadas,
Acalantando seus filhos na noite de Natal.
Noite da alegria do nascimento de Jesus.
Maria guerreira, guardiã da esperança.
Maria iluminada por sabedoria e silêncio,
Soberana em amor, serviço e sentimento,
No Teu útero grávido pulsava o Divino
Filho do Supremo, salvador da humanidade.
Maria, Marina, Mariana, meninas da Luz!
Mulheres serenas, secretas, singelas,
Maria do Norte, Maria do Sul,
Maria Judia fiel ao seu amor.
Das águas, da terra, da chuva que cai
Marias molhadas de pranto
Agasalhadas apenas
De teu sacro manto
Fiado na paz.


Brasília,  21 de Dezembro de 2004 












TOUPEIRA

Jairo Brod



Todo ano, nossa turma do antigo Segundo Grau se encontra em lugar diferente para colocar as fofocas em dia. A gente se encontra há 9 anos. Geralmente é por ocasião do Natal. Nunca é no mesmo lugar. A cada ano o encontro é em lugar diferente. Teve um ano que nos vimos no Park Shopping, outro na Água Mineral (todo mundo vestido a caráter: homens de sunga, mulheres de bíquini ou maiô, devidamente estampados com motivos natalinos).
O reencontro inesquecível foi o primeiro. Fazia 7 anos que a turma não se via. Nossa formatura tinha sido em 1988, no Clube do Exército, no Setor de Clubes Sul, aqui mesmo em Brasília. Somos todos eitistas, que é que como era conhecido quem estudava na EIT-Escola Industrial de Taguatinga, a mais renomada escola pública da cidade, em nível de Ensino Médio.
Hoje, a escola mudou de nome. É CEMEIT. Acredito que, se for mantida a tradição, os atuais alunos devam ser chamados de cemeitistas. Pois bem. Em 1995, na Chácara Mizuno, ali na L-Norte, em Taguatinga mesmo, marcamos o início dos reencontros da galera, que, além de eitistas, faziam parte da seleta “tchurma do barril” -- 14 roliços rapazes e 9 moças idem, que não tinham preocupação quase nenhuma com a forma física e eram chegados a uma loira, a gelada, se é que entendem. Nesse dia, foi um chororô danado. Todo mundo se abraçando, matando as saudades, contando o que estavam fazendo. Menos o “Toupeira”. Depois, o racha. Todo mundo, obrigatoriamente paramentados com adereços que lembravam o bom velhinho, disputando democraticamente uma pelada. Só de farra. Menos o “Toupeira”. Em seguida, a zoada na piscina. Ele não foi. A festa rolou madrugada adentro. Ninguém arredou pé. Só a Moema e ele. Nem bem escureceu, o “Toupeira” já tinha dado no pé. E essa foi a tônica de nossos oito encontros subseqüentes.
O último, em razão de agendas individuais apertadíssimas, ocorreu em julho deste ano, em Pirenópolis. Dos 23 eitistas/encontristas iniciais, tivemos duas baixas: a Norma, que casou e virou pastora, e o Tonho, que, infelizmente, depois de uma noitada na Praça do DI, ainda em Taguatinga, encontrou um poste no caminho de volta. Neste reencontro de Pirenópolis, já sem a Norma e o Tonho, aconteceu o de sempre: o Themístocles Aparecido da Silva, vulgo “Toupeira”, apareceu, conversou o suficiente, compenetrado e educadíssimo como sempre, destilou a sua habitual e vasta cultura, quando provocado, mas, nas brincadeiras e sacanagens ficava na dele. Lá pelas 17 horas, fez o caminho de volta, provavelmente pro Lago Sul, onde morava.
Sujeito estranhíssimo, o “Toupeira”. Sempre o melhor aluno da turma. E segundo soubemos, também no 1º Grau, e, inclusive, na Faculdade de Direito do Ceub, onde foi escolhido por unanimidade como orador dos formandos. Em pouco mais de 10 anos de militância no Foro, enriqueceu. Comprou casa luxuosa, carrão importado, não se casou e não se tem notícia de que tenha viajado nem pra dentro nem pra fora do País. Não tem cara nem atitude de gay. Mas nunca foi visto com mulheres. Talvez pela timidez patológica. É quase inconcebível pensar num advogado que seja tão acanhado como ele. Mas venceu na profissão. E tem um coração de ouro, segundo apuramos. Mantém financeiramente o 'Lar dos Velhinhos de Padre Bernardo', onde tem um sítio, a 100 quilômetros de Taguatinga. Tem fama de saber o Código Comercial de cor e salteado. Talvez aí esteja a fonte de sua riqueza financeira. O que mais chama a atenção nele, porém, é sua aparência. É de uma fealdade atroz. Até os homens reparam. A testa é proeminente; as orelhas, de leque; e o nariz, ah, o nariz -- origem do politicamente incorreto apelido --: protuberante, rombudo, com duas ventas que deveriam pagar imposto por consumo de oxigênio. Estranho que nunca ninguém o viu se rebelando contra a ignonímia que recebia em rosto, várias vezes ao dia, durante aqueles três anos em que convivemos na EIT. Nunca alterou a voz. Não retrucava nada e a ninguém. Parecia uma múmia. Só dávamos pela presença dele quando o professor ou algum gaiato o chamava. Sempre simpatizei com ele. Eu o protegia, à minha maneira. Nunca permiti que alguém se excedesse em comentários maldosos. Exigia que não passassem do apelido.E fui sempre retribuído, principalmente com a generosa e necessária cola de que eu tanto precisava. Sem falar nos providenciais Diamante Negro e Laka com que ele me mimoseava. Alto lá! Sem insinuações, por favor. Nunca rolou nada entre nós. Nunca, ninguém, pelo menos que eu saiba, me falou de alguma outra predileção que ele tivesse por mim. Nem sabia direito onde ele morava, o que fazia nos finais de semana, quais eram seus interesses fora da escola. Na verdade, embora, desde sempre, seja tido como bonzinho, defensor dos fracos e oprimidos, paladino da justiça – o que, de certa forma, explica, minha atual militância no PT, minha condição de funcionário público federal e, de, nas horas vagas, prestar assessoria gratuita na área da Advocacia – nunca tive uma amizade mais próxima com o Themístocles, que é como eu o chamo. Não por minha vontade, mas pelo distanciamento que ele deliberadamente mantém. Mas, desta vez, atiçado pelos outros eitistas, resolvi tirar tudo a limpo. Iria descobrir o mistério do “Toupeira”.
Soube de suas inflexíveis rotinas por meio de uma charmosa advogada que me arrastava uma asa. Soube, também, que ele não advogava à noite. Jamais. Daí talvez porque não tenha trilhado a senda do Direito Penal. E, realmente, não se soube, de nenhum evento noturno de que ele tenha participado. E de que a viagem mais longa era para suas terrinhas de Padre Bernardo. Subornei, com uma vaquinha feita junto aos eitistas,o caseiro de sua mansão, que me introduziu na casa, antes do pôr-do-sol, com a promessa de que o “Toupeira” não me veria por lá. Eu é que o veria em pleno desenrolar de seus mistérios. Nervoso, tremendo de medo e vergonha, vi-o chegar. Abriu a porta, sorriu – pela primeira vez, e me deu a impressão que para mim --, retirou um 38 da pasta de couro, apontou para a cabeçorra, disparou, e caiu fulminado. Para, finalmente, encontrar a paz. O Themístocles.