A manhã do dia 24 de dezembro emprestara 40 graus das caldeiras do inferno ao Rio de Janeiro, empurrando os compradores de última hora para as lojas mais caras onde a refrigeração, em geral, era mais forte. Ipanema ressentia-se de não ser a 5ª Avenida e o termômetro do Relógio da Praça Nossa Senhora da Paz já mal segurava o dígito 1 depois da dezena. El Niño ainda não havia sido invocado durante todo aquele ano para assumir a autoria dessas travessuras do clima no mundo, mas essa manhã de véspera de Natal não ficaria sem resposta. Juliana entrara rapidamente na igreja, persignara-se cheia de pressa e desculpas à Virgem, depois saiu desabalada pela Visconde de Pirajá invocando uma impossível brisa de praia. Ao contrário de outras mulheres que corriam contra o tempo para terminar os preparativos da ceia, ela corria contra o bom senso para encontrar um namorado até a hora da festa em casa de sua pentelhíssima bem casada irmã. De modo nenhum aquele Natal passaria sem que ela tivesse um homem que se apresentasse para levar à casa da soberba Margarete; porque um comentário que fosse da víbora sobre a demora em ajeitar-se na vida com alguém e ela sem dúvida voaria naquele pescoço gordo, estivesse ou não com o colar de brilhantes que ela, no afã de exibir, emoldurava sempre com decotes desproporcionais à idade e ao bom senso. Cumprir a sua determinação naquele dia era tão verossímil quanto uma nevasca no Leblon logo ali em frente, depois do Jardim de Alah, porém as lembranças amargas de comentários definitivamente maldosos da cadela de coleira de brilhantes subornavam a lógica das probabilidades para uma aposta insensata no improvável. A dificuldade não estava em algum aspecto repugnante ou pouco atraente da forma de Juliana, porque a melhor verdade é que se tratava de uma moça das mais bonitas! Bem tratava-se, para ser fiel à acima anunciada melhor verdade, de uma quarentona muitíssimo bem apanhada, como se dizia na época em que esta frase não precisaria de nenhuma correção. Tampouco seria difícil encontrar um homem disposto a uma noite, ainda que em família, com uma louraça de curvas redondas e pele bronzeada na cidade do Rio de Janeiro, especialmente quando se tratasse de um boca-livre em magnífica cobertura na Lagoa. Problema seria encontrar um homem nos excelsos padrões em que compusera nossa amiga seu ideal masculino e do qual, é bom que se diga, não cederia um centímetro. Obstinação que aliás não lhe vinha do caráter, mas do estado da necessidade: qualquer homem a menos, tinha consciência, não passaria pelo crivo daqueles que , em conjunto e lato senso, convencionara chamar de família. De tal forma que, ainda que fosse apenas um pouco menos encantado o príncipe, nessa péssima matemática das intrigas de família, seria inferior a nada! O caso era, pois, uma questão de tudo ou nada! Um deus grego formado em Harvard e especializado em bajulação de velhas malamadas ou a lama sem subterfúgios! Quanto ao seu plano? Bem, direto ao assunto: ela não tinha nenhum plano! Esperava um milagre mesmo, ao qual , é bom que se diga, tinha já pleno direito pelo tempo de espera vã e incensação infrutífera a Santo Antônio. “Minha filha” - era a voz estridente da Gertrudes Maia, sua tia-avó, impressa na memória- Santo Antônio arranja marido, mas é qualquer um, o primeiro que lhe passar na frente do altar! Promessa pra casar é melhor com São José, ele é que foi bom marido!” Está feito. Respondeu-se com irritação. Pedi pro Antônio e mutio tempo empenhei, se José quiser ajudar, que ajude, mas nada de mais promessas! Até hoje não punha chocolate na boca e nada de marido. Alguma idéia? Bem, esperava chocar uma ou duas enquanto secava o cabelo no salão de beleza e agitava os dedos nervosamente para desespero da manicure. Ficar linda era o único ponto de partida, escolhera a roupa de caça com deliberação predadora: um vestido de seda floral chinesa com fundo azul e uma sutil abertura lateral por onde transbordava a coxa deliciosa, sua pièce de résistance! De tal modo produzida estava que ela pareceu a si mesma ali, em frente ao espelho, uma vênus de platina embrulhada para presente! A hora estava perfeita: meio-dia e qualquer coisa, conforme desejara. E assim, saiu devastadoramente da galeria arrastando libidos pela rua e atropelando donas de casa ensebadas de suor que equilibravam pilhas de pacotes natalinos. Suas indefectíveis curvas acomodaram-se de um salto num táxi que parara no sinal. - Perdão, Senhora, mas o táxi não está em serviço. - Para o Barra shopping, por favor! - Eu insisto, Senhora, o táxi não está em serviço! - Escuta! Você quer que eu dê queixa?- Esticou-se para ver o nome do motorista na licença exposta ao console- Se quiser, Senhor... Alexandre Macedo, terei prazer em ligar para a Prefeitura. Um sorriso maldoso desenhou um ar sinistro no motorista que baixou a bandeirinha e deu início à corrida. - Pois bem, onde mesmo quer ir? - O Senhor ouviu: Barra Shopping. - Tenha a bondade de ensinar-me o caminho, então. - Ah! O Senhor, não sabe?-Disse a dama carregando na ironia- Vai ver não é da cidade. - De fato, resido em Boston e essa é minha primeira vez no Brasil em mais de vinte anos. Juliana olhou a cara de pau do miserável pelo espelhinho retrovisor e por dentro ainda riu-se do fato de que ele ainda afetava um discreto sotaque britânico, mas não se deu por vencida. - O Senhor, tenha a bondade de virar aqui na Cupertino Durão e pegar até a praia, depois pega a Niemeyer e não tem mais como errar. O motorista esticou os olhos para filar um pouco das pernas ofericidamente expostas. Juliana gostou da confirmação de sua forma, relaxou um pouco mais e resolveu dar corda: - É estimulante saber que lá em Boston se fala um português tão bom...! - Lamento que tal prática ainda não seja coletiva e massificada, porém mais restrita ao limitado grupo dos brasilianistas. Ela haveria de confessar, alguns anos mais tarde, que baqueou de pronto com aqueles olhos mais azuis que o Atlântico ali ao lado, fitando-a pelo espelho enquanto seu dono, um absurdo chofer de táxi zombava dela com um português castiço. Bem, soube logo que ele não era qualquer um...Ou pelo menos não se parecia com os habituais grosseiros motoristas comuns. - Com que, então, o Senhor é um brasilianista? Devo imaginar que leciona em Harvard? - Como visitante, minha cátedra é em Oxford! Juliana quase refugou. Era boa! Um chofer de táxi resolvera alugar sua cara na precisa manhã do seu desespero! Ponderou de si para si que, afinal, ela entrara na pilhéria por vontade própria e não seria apanhada assim em falta de fair-play. Como regra, relembrou-se: bancou o avestruz, agüenta o ovo! - Mas que honra! Estou sendo conduzida por um mestre de Oxford que leciona em Harvard em um passeio à beira-mar no Rio de janeiro! Lastimo que ambas universidades tão bem conceituadas, não remunerem adequadamente seus professores. - Por que diz isso? Sou muito bem pago. Melhor do que talvez mereça. - Se não me induz a erro a circunstância de estar o ilustre catedrático fazendo bico como chofer de táxi no Rio em sua folga de fim-de-ano, então devo deduzir que o salário é uma bosta ou, segunda hipótese, o Professor é doido... - Ou, terceira hipótese, talvez esteja trabalhando em algum experimento de reações humanas, porque meu passatempo bem pode ser estudar psicologia aplicada. - Ah! Então é esse o caso? - Não- disse ele confirmando com os olhos pelo retrovisor- É apenas mais uma hipótese. Na verdade, esse táxi não é meu, pertence a um primo brasileiro que gentilmente me cedeu para eu terminar as compras de Natal. Juliana titubeou pela segunda vez, mas ainda não se deu por achada. - Isso explicaria o fato de Você não querer me trazer à Barra. - Explicaria e explica! A Senhora ameaçou dar queixa e eu não queria ser causa de problemas para meu primo. Um minuto ainda antes de despencar das nuvens, ela, por instinto, puxou-se o vestido para baixo, ajeitou-se no banco e fez sua última jogada. - E os presentes de natal que faltam o Senhor bem pode encontrar no shopping, assim, livrava-se do importuno que eu fui e ainda resolvia o problema do presente de seu primo, de sua família, talvez de sua esposa... - Parece-me que seja esse o caso, exceção feita à esposa que não tenho, uma vez que sou solteiro- disse mostrando o anelar esquerdo para Juliana. De súbito a ficha caiu. Era mesmo verdade! Teria sido fulminada de vergonha caso sua mente houvesse dado algum tempo antes de sugerir-lhe melhor proveito para os poucos segundos que ainda restavam até a parada do carro já no estacionamento do shopping. - E esse seu “primo” é , de fato, um sobrinho sangüíneo de seu pai ou de sua mãe? - Se a senhorita quer sondar se sou gay, prefiro responder à pergunta direta e dizer-lhe que não só estou livre como aceitaria de bom grado um convite de uma bela mulher brasileira para a ceia desta noite. Um gordíssimo papai-noel começou, então, uma luta irreal com ela para abrir a porta do carro. Ela reagia sem perder o tom da conversa com o motorista. - Pois está convidado, mas, com uma condição. - Merry Christmas! – Bradava o suarento papai-noel manobrista. - E qual é? - Que você me peça agora em casamento. - Se a senhorita disser seu nome!-disse o mestre de Oxford rindo-se do inusitado tropical da cena. - Juliana Maia de Mendonça - Thomas Rightman, muito prazer. E, então, aceita casar comigo? - Merry Christmas!- Gritava o gorducho ainda mais alto. Juliana, por fim cede à luta, e dirigindo-se para o descabido manobrista ordena: - Já que, pelo jeito, você insiste em existir mesmo, abra a porta da frente pra mim que essa corrida está só começando!